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Grupos rejeitam abstinência como única forma de tratar dependência 16/09/2014

GABRIELLE GLASER
DO "NEW YORK TIMES"

16/09/2014 02h00

Quando seu filho teve que pedir atestado médico para não ir à escola, Jack e Wendy se conscientizaram de que precisam ajudá-lo a parar de beber. O psiquiatra do jovem e alguns amigos do casal sugeriram que eles procurassem os Alcoólicos Anônimos.

Segundo essas pessoas, ele tinha uma doença, e para continuar vivo teria de ir a reuniões e se abster de álcool pelo resto da vida.

Todavia, o casal, que mora em Manhattan e pediu para não ter seu sobrenome publicado, resistiu a essa solução e recorreu a um grupo de psicólogos especializados no tratamento de uso de substâncias nocivas no Centro para Motivação e Mudança.

O espaço em Nova York integra uma ala crescente no tratamento de vícios que rejeita a abstinência como única forma de recuperação para usuários de álcool e drogas.

Essa abordagem utiliza técnicas práticas e eficazes para resolver problemas emocionais e comportamentais, em vez de manter os dependentes longe da substância em questão, o que é algo extremamente difícil para jovens.

Ao contrário de programas do Al-Anon e dos Alcoólicos Anônimos, o centro não defende intervenções radicais ou o tratamento com frieza a alguém que consome bebida ou drogas em excesso.

"O método tradicional muitas vezes faz os pais se sentirem obrigados a adotar opções radicais: forçar o filho a ir para uma clínica de reabilitação ou ignorá-lo até ele chegar ao fundo do poço", disse a psicóloga Carrie Wilkens, que ajudou a fundar o centro há dez anos. "A ciência comprova que essas fórmulas não são muito eficazes."

A abordagem no centro inclui entrevistas motivacionais, aconselhamento voltado para metas; terapia comportamental cognitiva, uma forma de psicoterapia em curto prazo; e redução de danos, que busca limitar as consequências do abuso de substâncias.

Os psicólogos também apoiam o uso de medicamentos que bloqueiam a capacidade do cérebro de liberar endorfinas e as sensações obtidas com o vício.

Um estudo realizado em 2002 por pesquisadores da Universidade do Novo México e publicado no periódico "Addiction" mostrou que o uso conjunto de entrevistas motivacionais, terapia comportamental cognitiva e naltrexona é bem mais eficaz do que o modelo baseado em fé e abstinência. Pesquisadores em outros lugares fizeram descobertas semelhantes.

O filho de Jack e Wendy, hoje com pouco mais de 20 anos, começou a beber para aliviar a ansiedade e a depressão. Amigos de Jack sugeriram que se o rapaz não frequentasse os Alcoólicos Anônimos só restaria ao casal frequentar o Al-Anon. "Parecia não haver outra solução", comentou Jack.

Na literatura dos Alcoólicos Anônimos, o alcoolismo é definido como "uma doença progressiva que pode se tornar incurável".

Membros da entidade se descrevem como "em recuperação", o que significa abstinência e adesão para sempre dos 12 passos do Grande Livro, publicado quatro anos após a fundação da organização, em 1935. O primeiro deles é a obrigação de admitir a própria impotência perante o álcool.

Os métodos do centro causam polêmica nos setores envolvidos na recuperação de viciados. David Rotenberg, dos Centros de Tratamento Caron sem fins lucrativos, que reabilitam dependentes de drogas e álcool, é contra métodos que dispensem a abstinência.

"A maioria dos viciados em drogas e álcool adoraria tomar apenas dois drinques e até tenta fazer isso, mas os resultados são péssimos", afirmou ele.

Na realidade, a maioria dos estudantes que bebem demais não se torna dependente de álcool, disse Stanton Peele, psicólogo do Brooklyn que estuda o uso de substâncias há décadas e reprova o método do Alcoólicos Anônimos.

Os psicólogos do centro são categóricos: quando se trata de diminuir a ansiedade e aliviar a depressão, as substâncias tendem a funcionar em curto prazo.

"Os jovens não são loucos por usá-las", disse Wilkens. "Elas têm um efeito de certa forma encorajador. Entender isso permite trabalhar estrategicamente para apoiar e encorajar outros comportamentos, saudáveis."

A visão de Wilkens reacendeu a esperança de Wendy. Seu filho havia abandonado os estudos, e o casal buscava opções de tratamento. Ligado todas as noites e sentindo extrema ansiedade, o rapaz bebia demais para conseguir dormir e só saía da cama às 17h.

Atualmente, o filho de Wendy e Jack recebe ajuda no centro para tratar sua depressão e ansiedade. E parece ter reduzido muito o consumo de álcool.

Ellie, uma editora de Nova York, que prefere não divulgar seu sobrenome, espera o mesmo para a filha de 23 anos, que trabalha, mas bebe demais aos fins de semana. "Minha filha diz que não teria vida social se parasse de beber."

Ellie e seu marido começaram a ter sessões com um terapeuta no centro. "Minha filha não se resume a um rótulo ou a um diagnóstico", disse Ellie. "A garota não é um problema a ser resolvido, e merece ser amada e orientada para ter uma vida melhor."

fonte: Folha de S.Paulo 
 

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